Companheiro?
Conheci sem me dar conta, com a mesma naturalidade que se toma café da manhã. O começo foi como dois adolescentes apaixonados, tudo parecia fluir perfeitamente, a rotina era orgânica, suave, passávamos horas juntos, até os dias difíceis se tornavam toleráveis.
Com o tempo, as coisas mudaram, e como um carro desgovernado, tudo foi de zero a cem extremamente rápido. O compromisso deu um novo passo, as palavras se tornaram um contrato, oficializar é parte comum do processo e inevitavelmente, já era de conhecimento público que estávamos juntos, criando planos para o futuro. As etapas pareciam óbvias, nestes momentos, os conselhos surgem de todas as partes, dar certo era apenas uma questão de decisão, independente do caminho escolhido, queríamos estar juntos.
Como de costume, dormirmos juntos, pensando na manhã seguinte, mas naquela noite de inverno algo soou diferente. Revirei de um lado para o outro, agitado, ansioso com algo que não sabia descrever ou traduzir, ele não me confortou. No café da manhã, ele não me abraçou, e diferente de todos os dias anteriores, sua presença não era convidativa, seu olhar parecia pesar, julgando de maneira opressora cada movimento e fala, como se esperasse cinicamente por pequenos erros. Os dias se tornaram menos alegres, nossos momentos juntos se tornaram extremamente cansativos, eu cedia uma energia e atenção que não parecia retornar, ao menos, não como antes. A reciprocidade se tornou cada vez mais escassa, e quando eu tentava conversar sobre o assunto, ele apenas desconversava.
Fazia três anos quando eu finalmente decidi confrontá-lo, infelizmente, eu estava sozinho. Já não existia carinho ou afeto, ele era cínico, abusivo e grosseiro, as primeiras reclamações vieram com uma ignorância irredutível, "faz parte, todos passam por isso". Agia como um Deus, apoiado por uma complacência contínua, cada queixa possuía uma resposta precisa, eu não tinha voz, e mesmo que tentasse gritar de outras formas, tudo parecia perfeitamente arquitetado para que ninguém me escutasse. As respostas curtas deram lugar a represália, abrir a boca significava tortura, uma violência psicológica que me consumia em pedaços, se convertendo em sintomas biológicos reais, falta de apetite, insônia, dores estomacais, exaustão, fraqueza, eu não podia ir embora, já havia me tornado extremamente dependente. Abrir a boca me feria, ficar em silêncio, também.
Depois de meses entupido de medicamentos, ganhando peso pela má alimentação constante, eu quebrei, quebrei de uma forma que não conseguia mais ignorar. Passei a me impor, me impor como se não me importasse com as consequências, entrando em um conflito interminável, vivendo cada minuto com uma ansiedade angustiante, pensando como tudo isso terminaria, perguntando se o dia de amanhã me levaria com ele. No fim, ele me deixou, não por fraqueza ou desistência, mas por orgulho, apenas pela intenção de me esperar voltar.
Seu nome? Trabalho.