Procedimento de Adequação
Ela leu as palavras “procedimento simples” ao menos 5 vezes antes de assinar.
O prédio estava cheio de funcionários e lembrava um shopping até certo ponto. As paredes eram claras demais, as luzes brancas demais e não havia janelas. Todos ali pareciam extremamente focados em suas funções, sem se incomodar com o ambiente ou com a presença dela.
Ela entregou os papéis assinados à recepcionista, que sorriu sem mostrar os dentes e pediu que ela aguardasse.
Na parede ao lado era possível ver um quadro com letras pretas, escrita à mão:
REGRAS
Ela pensou em perguntar o que seriam as reações, mas a porta já estava se abrindo.
Na sala, havia uma maca, instrumentos alinhados e um relógio com mais números que o normal. A mulher de jaleco falou de forma monótona:
“Seu corpo apresenta excessos. Nosso trabalho é adequá-lo.”
“Adequar a que?” Ela perguntou
Com o mesmo sorriso da recepcionista, a mulher parou de anotar e a olhou.
“À função.”
Ela se deitou na maca e aguardou.
“Relaxe, tensão atrasa o processo.” Disse uma voz masculina que não estava lá antes. “O procedimento é rápido, se você colaborar não haverá necessidade de repetição.”
Ela tentou perguntar o que significava repetição, mas já estava posicionada. As contenções a apertavam, mas eram apenas auxílios de estabilidade de acordo com o contrato.
Quando começou, ela sentiu imediatamente que algo estava diferente. Não sentia dor, apenas a sensação de algo estar sendo feito. O corpo não respondia, mas ela sentia, e percebia.
O equipamento emitiu um som irregular e o homem franziu a testa.
“Estranho.”
Essa palavra foi pior que qualquer sensação ou dor que ela pudesse ter sentido. Ela sentiu uma queimação no peito, mas não conseguia se mexer, nem falar, mesmo estando acordada.
O cheiro metálico invadiu o ar que antes parecia esterilizado.
“É o estômago, vamos precisar corrigir.”
O barulho de um líquido pingando no chão a deixou ainda mais apreensiva. O cheiro metálico parecia ficar cada vez mais intenso.
Ela chorou sem perceber, mas não havia espaço para emoção naquele ambiente.
“Contenha a melhor, isso não deveria estar acontecendo.”
O tempo parecia não passar. O relógio na parede se mexia sem pressa, mas aqueles números não faziam sentido. O procedimento não foi interrompido, apenas adaptado.
Ela finalmente sentiu algo ceder dentro de si. Não foi uma sensação de alívio, mas sim de perda.
“Pronto.” disse um segundo homem, que não estava lá até então. “Agora sim.”
Quando soltaram as contenções, ela não conseguiu se mexer de imediato. Não da forma como estava acostumado, pelo menos.
“Você reagiu mal, isso vai exigir acompanhamento.” disse um dos homens, em um tom neutro.
“Eu…” sua voz saiu fraca.
“Não fale agora, pode agravar o quadro.” disse a mulher.
No banheiro, ela finalmente pode se ver. As suturas iam do peito à bexiga. Ao redor, era possível ver os hematomas de um corpo muito machucado. O cheiro de sangue continuava forte. Apesar disso, ela ainda não sentia dor, não sentia nada na verdade.
Na recepção, outra mulher esperava, preenchendo os seus papéis.
“Dói?” A mulher lhe perguntou.
Ela deu de ombros.
Os dias seguintes seguiram o mesmo padrão. Procedimentos, assinaturas e avaliações. As palavras também se repetiam: Ajuste, correção, otimização. Nunca dor. Nunca violência.
“Algumas mulheres demoram mais a se adaptar.” ela ouviu de um dos médicos durante uma avaliação.
Depois da quarta semana, ela sentiu que estava melhor. Partes de seu corpo estavam diferentes. Não reagiam mais com dor, não reclamavam, não protegiam, apenas aceitavam.
Ela perguntou se aquilo seria permanente.
“Pense nisso como um progresso no seu funcionamento.” foi a resposta.
Na semana que se seguiu, o procedimento demorou mais que o normal. Exigiu mais precisão, mais silêncio. Mas ela não chorava mais, apenas respirava fundo, afinal, ela havia assinado.
Quando terminou, lhe foi perguntado se ela estava apta para continuar.
Ela disse que sim, uma resposta automática, já treinada.
Na saída, viu mais uma mulher preenchendo seus papéis. Ela reconheceu o medo em seu olhar. Mas reconheceu também a esperança.
“É ruim?”
Ela tocou em sua barriga, sentindo as suturas por debaixo do uniforme.
“Dá pra aguentar.” ela respondeu em voz baixa, e seguiu seu caminho.
Na semana seguinte recebeu uma promoção. Agora ela ajudaria e orientaria as novas funcionárias. Seu treinamento estava completo. Ela finalmente pertencia àquele lugar.
No formulário era possível ler: ADEQUAÇÃO CONCLUÍDA COM SUCESSO. FUNCIONALIDADE APROVADA.
Ela leu aquilo sentada atrás do balcão da recepção onde tudo tinha começado. Seu corpo e mente focados apenas em sua função.
Quando a próxima mulher veio até ela para entregar seus papéis, ela sorriu.
Não mostrou os dentes.