Autópsia #1 – Escritor
Me tornar escritor é uma das decisões mais estúpidas que já tomei, e exatamente como em um clichê narrativo, ela também foi uma das melhores.
Todos escrevem, é fato, e mesmo que isso alimente uma série de questionamentos autodestrutivos, essa realidade não vai te deixar, não somos especiais, e nenhum de nós irá escrever o novo ''Dom Quixote'', mas no final, isso não muda porra nenhuma.
Não muda? É, não muda! Eu entendo, pode ser um aviso claro para você mudar todas as suas pretensões, mas sinto em lhe dizer, se tornar um escritor ou escritora vem como uma espécie fardo, se por algum motivo isso lhe for incumbido, ignorar não será uma opção. Sim, trabalhar com isso não te dá o suficiente para pagar as contas, mas não se preocupe, você vai detestar o trabalho, na realidade, você vai detestar qualquer coisa que te afaste da sua existência lírica, exceto se tiver muito gosto pela linguagem exclusivamente comercial, mas a escrita de duzentas páginas de pornografia barata/romantização relacionamentos abusivos não está nos meus planos, uma questão princípios. Seja por bem ou por mal (embora eu não acredite na dualidade), você vai descobrir que esta decisão não tem volta, eu sei, poucas têm, mas aqui é bem diferente, vamos por partes...
Escrever é viver um destaque, não de persona ou reconhecimento em si, mas de pertencimento. Escrever é viver um constante sentimento de desavença com o todo, como se nada ou ninguém fosse digno de certa identificação, não por ignorância ou soberba, mas porquê...no fundo...o mundo passa a soar completamente diferente. Tudo vai te irritar, as conversas superficiais se tornarão desgostosas, eventos maiores serão extremamente cansativos, sua bateria social ficará cada vez menor, posturas viciadas que antes eram toleráveis passarão a se tornar um repelente eficaz de convivência, o mundo vai correr em uma velocidade completamente diferente e você só terá um desejo: Voltar para casa e escrever.
É claro, sua vida não vai se resumir apenas a escrita, não somos um personagem genérico de uma série Netflix, embora estereótipos como o uso do óculos e o gosto por café realmente sejam reais, você ainda terá inúmeros gostos, exatamente como qualquer um, porém, um sentimento será completamente diferente: A solidão.
Se tornar um escritor ou escritora é abraçar a solitude, o que não significa estar de acordo com ela, muito pelo contrário, ás vezes a detestamos com todas as forças, mas infelizmente, ela se torna o único espaço de conforto. Que fique claro, esta solidão não é performática, não se trata daquele ideal criado pelo Instagram, X ou qualquer outra rede social estúpida que busca te vender uma imagem, esse sentimento se torna uma espécie de compulsão, uma compulsão voraz que de maneira inexplicável, te alimenta com uma eficácia duvidosa, já que em paralelo, reforça uma fome que nunca é saciada.
A solidão se torna uma amiga extremamente contraditória, ela te dá exatamente aquilo que precisa, mesmo que o custo envolva uma certa distância do mundo. Não entenda errado, não nos isolamos por completo, não passamos dias trancados em casa sem ver ou conversar com ninguém, o problema, é que não nos incomodaria fazê-lo, e diferente dos ''antissociais'' assíduos em suas atividades online (o que torna essa falta de sociabilidade potencialmente questionável), o FOMO não teria força alguma. Não é um problema esquecer o celular, ignorar os acontecimentos externos, e se tiver leitura o suficiente, talvez o mundo acabe sem que a gente se dê conta. Somos perfeitamente capazes de ignorar o todo, não por apatia, mas pelo destaque, pelo pertencimento que nunca aconteceu, consequentemente, naturalizamos a nossa distância, o que a longo prazo, gera uma série de situações desconfortáveis.

Estar distante nos torna, com o tempo, inconvenientes, não por sermos pessoas difíceis, mas por não fazermos questão de dispor energia por mero capricho social, não estamos interessados em vender uma simpatia que no fim, não passa de alimento para o ego alheio. Não reforçamos personas infladas, não queremos cair no gosto de figuras populares que são adoradas pelo ambiente e possivelmente, seremos um dos poucos a rejeitá-la, o que aparenta ser prazeroso a primeira vista (quem não gostaria de ignorar narcisistas com facilidade não é mesmo?), mas na prática, dificulta nossas relações. Se isolar e não fazer questão, significa comprar antipatia, você não mantém o status quo a sua volta, não venera o templo dos narcisistas, não contribui para centralidade das pseudo celerebridades do cotidiano, o que consequentemente, cria um ótimo bode expiatório. No trabalho, nos grupos sociais, até mesmo em alguns relacionamentos de amizade, ser aquele que não se importa em cumprir demandas inseridas a força torna sua presença um problema, um peso, desequilibramos o conforto, questionamos o conveniente e nos retiramos, não atribuindo peso ao que socialmente é uma causa luxuosa. Mas por que este afastamento se torna tão prazeroso? Infelizmente, não tenho uma resposta esclarecedora, e honestamente, prefiro assim.

Estar verdadeiramente sozinho não se assemelha em nada a viver momentos de privacidade, enquanto o segundo é um estado passageiro com o conforto do silêncio, o primeiro é atribuir uma nova ótica para enxergar o mundo. A nossa solitude acaba criando novas camadas de profundidade, seja nos gostos, hobbies ou até na percepção passiva do todo, passar horas sozinho transforma a maneira como nos relacionamos as coisas, e é exatamente por isso que se torna tão reforçador. Passamos a compreender como muitas crises não faz diferença, e assim, direcionamos nosso tempo e energia para aquilo que realmente nos preenche, entendemos que muitos gostos, desejos ou pretensões se quer nos pertencem, e que basta o abandono da internet por algumas horas para se encontrar, encontro que inevitavelmente, gera uma personalidade completamente diferente do qual você estava habituado.
Este encontro da origem a uma nova persona recepcionada com muita desconfiança, mas que eu garanto, virá para ficar. Essa conversa interna te leva a entender anseios, medos, sonhos e objetivos com uma nova riqueza, a falta da toxicidade externa permite um desenvolvimento pessoal mais atencioso, sério e até mesmo, mais dedicado. Você finalmente entende como parte de suas intenções foram construídas e dentro disso, possivelmente, a maioria delas nem te pertença, o que leva ao desenvolvimento de aspirações mais claras e que realmente, foram moldadas pelos seus ideias. Para além disso, a solidão revela como somos coniventes com as nossas ansiedades exatamente na mesma proporção que somos vítimas, é exatamente ai que finalmente compreendemos o peso desproporcional que aplicamos em situações líquidas, perdendo sono, bem estar e saúde por dramas que na prática, não representam coisa alguma. Esse conhecimento te leva a reestabelecer sua relação com os próprios problemas, descartando crises completamente desnecessárias e que geralmente, foram causadas pela sua intenção de dar voz a uma situação pífia, motivado por pressões e demandas que nunca estivemos de acordo, mas que na busca de se adequar ao ambiente, aceitamos por conveniência.
Esse amadurecimento da vida a um espaço completamente diferente, preenchido com identidade, estruturado com respostas sinceras, mas que paralelamente, exige uma presença intensa. Junto disto, surge a identificação com a escrita, acumulando textos que traduzem a sua realidade e temperamento criativo, e ai você finalmente compreende, a reclusão te faz bem. Ela não te enfastia, não te diminui e muito menos gera pressões intermináveis, pelo contrário, ela adiciona, potencializa seus interesses e ajuda a encontrar respostas as suas inseguranças, estar sozinho parece ao escritor, a melhor de forma de ''ser''.
E é com sinceridade que eu finalizo, a solidão é uma escolha de vida rígida, mas também, responsiva, ela cria um isolamento pouco afável mas que na mesma medida, gera paz, transformando problemáticas externas em situações completamente voláteis que nos lembram de nossa estupidez passiva. Viver a solitude é a forma como os escritores amadurecem, como traduzem o mundo e felizmente, é como encontram o seu lar.
Mas ainda que seja parte de nós, essa escolha produz inúmeros conflitos, conflitos que relembram outra parte prazerosa/dolorosa de se tornar um escritor: Sentimos tudo! Mas isto, fica para próxima etapa da autópsia...