II
me conhecer é, mais que tudo, prender a respiração antes de mergulhar no obscuro de
mim.
como um portal, me travessar transforma, eu bem sei.
a ponta dos meus dedos formiga, eu não sinto a planta dos pés no chão.
ontem mesmo eu disse, com um sorriso, que não podia partir assim.
não estava pronta, e nunca estaria.
como se fosse filha-obra de artistas, era e seria obra inacabada.
eu, enquanto forjadora de mim, sempre tentei a todo custo me finalizar enquanto obra.
o prazer e a culpa, sentimentos tão cristãos, me entrelaçaram na partida.
justifiquei o que sentia “eu disse que ainda não estava pronta”.
o belo, o belo que encanta os olhos, preenche a alma, nunca no espelho.
se eu pudesse ter ao menos o controle.
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não foi fácil, cheguei nesse resultado por muito esforço, sim, não é fácil adestrar os vermes
para que comam só a gordura.
era o discurso que eu praticava enquanto olhava o corpo pálido, pele e osso.
pele e osso enfim.
a pele se esticava sobre os ossos como papel de arroz.
nunca havia estado tão bela, mas, seria passageiro, eu sabia que seria.
meus ossos, tão lindos, a mostra, cobertos por uma fina camada de pele.
me desesperei pensando no que seria de mim, agora que ao menos por fora a obra estava
completa.
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trouxe ele até a sepultura, convenci de que valeria a pena.
tão fácil convencer quem precisa ser convencido sobre si.
os escrúpulos não faziam mais parte dele, assim como a dignidade.
perder tudo, viver na rua, comer o lixo, não era esse o fim de um bom artista?
agora, destinada à outras mãos, talvez melhores que as minhas, talvez melhores que as
dos meus pais.
apreciei a extração da matéria prima com cuidado, não podia deixar ele desperdiçar.
apontei as peças certas.
uma coleção inteira, fiz ele pensar, uma coleção inteira, fiz ele concordar.
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Nesta instalação, o espectador é convidado a refletir sobre os limites entre dor e beleza,
vida e morte. Três facas afiadas, talhadas em osso e adornadas com pedras preciosas e
ouro compõem o núcleo da obra. A matéria-prima utilizada em sua confecção foi extraída de
um cemitério localizado em uma pequena cidade do interior, gesto que tensiona a relação
entre memória, sacralidade e profanação.
As peças foram encontradas cravadas no corpo do próprio artista, configurando um ato
extremo de entrega e inscrição do próprio corpo como suporte da arte. Ao fundir violência e
preciosidade, o trabalho propõe uma leitura visceral da tragédia como experiência estética.