III
O relógio estava parado, a louça suja na pia, tudo milimetricamente fora do lugar.
Os dias se arrastam e levam com eles, dolorosamente, minha empatia.
Como quem arranca os pontos de uma ferida não cicatrizada, o tempo arranca de mim as memórias do que um dia foi meu lar.
A falta de zelo em nutrir, sempre ela, a falta, é o que marca as paredes, o chão.
Marca cada prego martelado para durar, marca cada fio de cabelo misturado com a tinta a óleo da parede.
A falta, junto do tempo, rouba, um a um, os sorrisos dados, que ficam no ar até deixarem de estar.
Ontem mesmo, eu ouvi um choro, sinto que foi o que sobrou, depois de ir se esvaziando pouco a pouco a alegria.
Eu queria poder dizer que tudo está igual, queria guiar qualquer um pelos cômodos, atravessando cada década, como quem vê um filme diante do corpo, vive o filme nos olhos.
Queria todas as coisas, todas elas de volta em seu lugar, queria o armário azul, as louças do balcão, a mesa pequena, as almofadas grandes.
Queria a gelatina quente na xícara de café, queria o que não vivi, ou melhor, vivi, mas se esvai.
Agora mesmo, ao lembrar, sinto o sangue escorrer da ferida viva.
Sinto que mesmo querendo, o tempo e a falta não vão deixar ela fechar.
E você, me olha com olhos tão cruéis, de quem deixou a falta entrar e morar.
Você quis se apagar, e me apagou. Agora, só tempo e falta.
O relógio estava parado, a louça lavada na pia, as mãos dela molhadas, as minhas secas, tudo milimetricamente fora do lugar.