IV
hoje eu vi você com seus olhos esbugalhados na rua. eu estava com pressa e você parado como quem não tem compromisso com a hora. te vi de longe, atravessei a rua e rezei para que você não me visse, embora eu soubesse que seu olhar me acompanhava.
te ver ocupou minha cabeça, embora eu tentasse correr do pensamento, ele me encontrava. eu tinha um certo prazer em fugir dos meus pensamentos, era como brincar de pique-esconde dentro do meu próprio cérebro e todos os seus labirintos. pique-esconde ou pega pega? eu sei que sempre fui boa em me esconder, ou será que os outros não eram bons em me achar? quando eu era criança sentia um misto de prazer e dor em me esconder e ver a vida acontecer sem mim, prazer misto com a dor de perceber que talvez a vida acontecesse tanto sem mim que ninguém fosse vir me procurar.
seus olhos esbugalhados estavam ali, dentro da minha cabeça, me procurando, como se não fosse desistir até me encontrar. era o contrário do meu medo, era o contrário de me esconder e não ser procurada. o prazer da intenção de seus olhos me encontrarem me fazia sorrir.
sentada eu encarava minha caneca de café, como se ela fosse um portal que me tirasse do mundo tangível e me colocasse dentro da minha mente. assim eu pensava melhor, conseguia mergulhar inteiramente no pensamento de se me ver havia te feito pensar, assim como eu pensava em você naquele instante.
seu rosto tão lindo, com os olhos esbugalhados, uma camiseta branca com uma estampa em vermelho, uma calça jeans e seus tênis preferidos. a expressão que mais gostava de ver em seu rosto eram os olhos esbugalhados, você costumava fazê-la em nossas conversas que duravam madrugadas adentro, havia um ponto em que algo que eu dizia te fazia esbugalhar os olhos, e eu ria. você, depois de me fazer sorrir então ia embora, e eu ficava com o peito preenchido da alegria de quem se esconde e é encontrado.
eu tinha o péssimo hábito de não conseguir dormir, me revirava na cama como quem luta contra algo que tenta prender, segurar, conter. para mim o sono era isso, muitas vezes ele me pegava desprevenida e então conseguia me carregar por algumas horas, mas eu sempre voltava. não gostava de perder o controle de mim, o sono é isso, não é? um entregar-se ao controle de sabe lá o que. eu, na verdade, sei bem do que, o sono é me entregar ao controle dela, que mora em uma torre de vigia dentro da minha cabeça e com um farol irritante, durante o sono, ilumina lugares que eu não gostaria de ver.
sentada ao meu lado, minha colega falava sobre algo que eu concordava, sorria e dizia palavras soltas que a empolgavam e faziam com que ela falasse ainda mais. “e o pior, depois de eu ter dito que não era para correr no sol, ele entrou em casa com o nariz escorrendo sangue”. sangue, sagrado, vital. tão engraçado pensar que somos tão frágeis, que somos mantidos em pé com a ajuda de algo que é tão incrivelmente complexo e visualmente simples.
seu rosto, com os olhos esbugalhados, estava agora tão perto de me encontrar no emaranhado de caminhos do labirinto do meu cérebro. eu prendi a respiração, como se isso fosse te impedir de me encontrar.
acho que o que mais me encantava no sangue era o seu vermelho quase proibido. assim como a cor mais bonita era o verde arsênico, não apenas pela cor em si, que era encantadora, mas pelo seu efeito mortal. é fato que o vermelho sangue é ainda mais bonito com ele quase vivo. meu cabelo preto combinava com os lábios vermelhos, você me disse uma vez.
agora, já sozinha no banco do jardim, eu encarava a caneca vazia quando um cheiro de ferro tão forte me tomou de surpresa, era como se ele viesse das minhas mãos que em um piscar estavam vermelhas, no outro não estavam mais. aquilo não me assustava, claro que não, afinal, investi tempo e dinheiro para que minhas medicações me fizessem funcionar como alguém normal (o psiquiatra odiava esses termos). por isso, aquilo não me assustava, não podia me assustar, nada estava acontecendo na parte de fora de mim.
coloquei tranquilamente a caneca do lado, estendi as mãos e as encarei, como se as tivesse apreciando, em uma piscada vermelhas, em outra, não. o cheiro de ferro vinha delas, eu acreditava que sim. levei uma mão até próximo do meu nariz, cheirando o creme novo para mãos que estava usando, eu pensei, era isso caso alguém perguntasse. o cheiro de ferro vinha delas, tão líquido que ao encostar no nariz, ele ficou.
agora, vejamos, preciso manter a calma, afinal, investi tempo e dinheiro para funcionar como uma pessoa normal. mais uma vez eu tentava roubar o protagonismo de mim, tentava me impedir, como sempre, de agir como uma pessoa normal. eu não ia permitir, investimos tempo e dinheiro para parecermos uma pessoa normal, eu disse a ela, como quem fala em uma galeria dos sussurros.
me levantei e insisti que já tinha tido minha cota de bobagens, agora precisava me entregar inteiramente ao objetivo de agir como uma pessoa normal, afinal, havíamos investido tempo e dinheiro nisso, ou melhor eu havia, eu havia. e assim foi ao longo do dia, e assim saí pela porta e respirei fundo. na volta pra casa, torci para não te ver, para não encarar seus doces olhos esbugalhados, não me fazia bem, eu precisava saber disso, eu precisava que ela soubesse também, ela não, eu, eu precisava saber, eu.
ao atravessar a rua um grito me assustou e o susto me fez respirar alto demais, e você e seus olhos esbugalhados e camiseta branca com estampa vermelha com cheiro de ferro e seus tênis preferidos me encontraram no pique-esconde do labirinto da minha mente. e ela ria e vinha em nossa direção. ela era a dona do sorriso final da brincadeira de procurar e achar.
ela ia nos encontrar, eu sabia que sim, eu racionalmente queria que não, mas secretamente queria que sim. éramos como irmãs que brigam e se amam, ela me achou um dia quando me escondi tanto e tão bem que passei horas esperando ser encontrada, e observando a vida da casa acontecer perfeitamente sem mim. desde então somos unha e carne, ela não é fácil, eu sei, mas o amor não é sempre feito pra ser fácil. ela disse isso a você a última vez que te vimos, com seus olhos esbugalhados, eu disse, eu.
depois de te dizer isso veio o cheiro de ferro e o vermelho mais bonito que já havia visto. ela queria continuar, eu queria parar e apreciar, ela me disse que se concordasse em continuar haveria mais vermelho para apreciar, ela sabia como me convencer. ela me disse que precisávamos investir tempo e dinheiro para funcionar como uma pessoa normal por poucas horas durante as várias horas de um dia.
eu fiquei sentada apreciando o vermelho sangue por tempo suficiente até o sono me pegar desprevenida e a desagradável moradora da torre de vigia me presentear com as suas dispensáveis imagens trazidas à luz. é claro que não queria me ver escondida atrás de uma moita, pés descalços na terra e todas as outras crianças brincando a brincadeira seguinte, a que veio depois do pique-esconde, onde ninguém me encontrou.
não era possível a coincidência de te encontrar mais de uma vez no dia, e mais uma vez rezei para que você não me visse. e você, com os olhos esbugalhados, veio até mim, encurralada pelo fim da calçada, pela iminente chegada do ônibus que não me permitia atravessar, impaciente por você estar cada vez mais perto. um olá? um abraço? um beijo no rosto? como eu cumprimentaria o fantasma de você? deixaria você decidir. e com a sua chegada um empurrão e o amarelo vivo diante dos meus olhos e o vermelho sangue e o abraço verde arsênico e escuridão.