Lá, Dó, Mí
Daniel, com seus 9 anos, ainda não tinha muitas lembranças. Seu dia a dia era composto pela vista das janelas da antiga casa de madeira, seus poucos brinquedos e, é claro, pelos gritos da avó toda vez que a música parava.
O som vinha de uma caixinha de música que ficava em uma estante na sala. Os dois moravam sozinhos naquela casa, e a avó, já velha e com os movimentos limitados pela idade, não conseguia mais levantar rápido o suficiente para dar corda no objeto assim que ele parasse. Isso fez com que a tarefa virasse obrigação do menino, que sempre a executou sem questionamentos.
A avó sempre deixou claro que a caixinha era o coração da casa, e o menino nunca duvidou disso. Afinal, enquanto ela tocava, ele recebia carinho, conversas calmas, comida gostosa e chá quente.
“Nunca deixe que a música pare, meu Daniel. A música é o que nos mantém seguros e felizes”, a avó dizia em momentos de calmaria. Mas havia um contraste em sua atitude quando a música parava. Às vezes, enquanto a avó fazia algum de seus bolos favoritos ou lia algum livro em sua cadeira de balanço, a música parava. E eram nesses segundos de silêncio que o sorriso da avó ficava um pouco mais esticado, seus olhos, um pouco mais fundos, sua voz, um pouco mais rouca e seu cheiro, mais parecido com o de algum animal molhado do que com seu característico perfume de lavanda.
“Você está bagunçando a casa que eu luto pra manter limpa”, a avó gritava no mesmo instante, com uma voz áspera, cheia de ódio e um olhar fulminante. “Conserte a música agora, sua peste.”
Assim que Daniel levantava correndo, não importava o quão ocupado estivesse, e a música voltava a tocar, o sorriso e o calor da avó retornavam.
“Meu amor, me desculpe. Devo ter perdido a cabeça. Quer provar a massa do bolo?”
Daniel respirou aliviado. Ainda bem que ele havia sido rápido. Ele tinha muito medo da avó quando a música parava. E não era sempre que ele era rápido o suficiente.
–
Uma bela tarde, Daniel estava brincando com seus carrinhos na sala enquanto a avó estava no porão da casa. Mesmo com a mobilidade reduzida, ela nunca deixava que o menino descesse com ela. Era o único cômodo da casa que ele nunca havia visto, e também preferiu não questionar o porquê. Afinal, ele era um bom menino, não é verdade?
Porém, naquela tarde, a caixinha parou. Daniel tentou dar corda, mas ela parecia ter estragado.
“Não!”, gritou a avó lá de baixo. “Você precisa mantê-la tocando. Conserte isso agora.”
O menino sentia seu corpo todo tremer. Ele conseguia ouvir os passos lentos de sua avó subindo a escada. Cada segundo contava.
Ele tentou, em vão, consertar o que quer que estivesse quebrado naquela caixinha, mesmo sem saber como o faria.
“Vó, ela está quebrada, por favor…”
Mas já era tarde. Sua avó já tinha chegado à sala. Ou o que quer que aquela criatura raquítica, com braços extremamente enrugados, um rosto com olhos escuros e muito fundos, cabelos ressecados e ralos e cheiro de ovo podre fosse.
“Você acha que eu tenho tempo para seus joguinhos, garoto? Eu sacrifiquei tudo para manter um teto em cima da sua cabeça, e é assim que você me agradece?” A voz era irreconhecível e soava como unhas arranhando uma parede, se é que uma voz pode soar assim.
O garoto olhou mais uma vez para dentro da caixinha e conseguiu ver algo, riscado no fundo, quase apagado.
“Lá, dó, mí.”
O menino não entendia muito de música, e a avó se aproximava cada vez mais. O cheiro piorava, e ele sentia náuseas cada vez mais fortes. Foi então que ele decidiu tentar. Ele girou a base da caixinha com as próprias mãos, no lugar de dar corda. Uma música diferente começou a tocar. Aquela não era a música da caixinha.
“NÃO!”, a criatura, que não tinha mais nenhuma semelhança com a avó, gritou enquanto definhava em sua frente.
Quase não aguentando o cheiro, mas querendo dar um último adeus à sua avó, que cuidou dele por tanto tempo, Daniel a olhou uma última vez. Foi então que ela lhe disse suas últimas palavras, em tom de desespero.
“Seu avô está subindo.”