Narcisa
Tudo começou com a minha sobrancelha direita que era meio milímetro mais baixa que a esquerda. E daí que ninguém percebia? Eu via toda vez que me olhava no espelho ou mesmo num reflexo qualquer, como o da porta do elevador. De tanto falar sobre isso, uma amiga me indicou o “médico” de uma conhecida dela. Bem baratinho ele poderia “consertar” esse meu defeito.
Nem pensei muito e fui, logo que me viu chegar, o “doutor” em beleza me esquadrinhou com os olhos e sentenciou: “você veio retirar essas bochechas estufadas?”. Não acredito, eu não tinha me dado conta desse outro defeito, muito maior do que o outro já detectado.
Diante dessa descoberta – e da promoção que meu novo amigo ofereceu – resolvi meus dois grandes problemas: minhas bochechas aparentemente infladas e minha sobrancelha. Inclusive, sobre a sobrancelha ele me recomendou um pouco mais de toxina do que eu havia planejado, assim ambas ficariam mais arqueadas e alinhadas.
Após a remoção das “almofadinhas” do meu rosto e da fixação das minhas sobrancelhas, tão altas quanto uma bandeira hasteada em dia de feriado nacional, vivi um mês de perfeita paz com meu espelho. Eu me olhava e me via mais altiva, mais decidida e pronta para enfrentar o mundo.
Numa noite, resolvi sair com alguns amigos e um comentário, feito despretensiosamente na mesa do bar, abalou completamente aquela confiança recém-descoberta. Uma das minhas amigas comentou que eu era a única mulher naquela mesa a ter lábios “naturais”.
A frase não foi em tom de deboche e nem com alguma má intenção camuflada, porém, finalmente meus olhos foram abertos para uma questão: meus lábios eram muito finos. Produtos com efeito pump – que te fazem sentir como se estivesse sendo picada por mil abelhas – se tornaram meus grandes aliados.
Mas, nem o uso constante dessa pequena tortura era o suficiente para me fazer sentir bem dentro da minha própria pele. Então, num momento de desespero procurei aquele “médico” novamente.
Na minha segunda visita, o braço direito da beleza já parecia saber exatamente do que eu precisava: levantar meus olhos, tão caídos que lhe fizeram me perguntar qual era o motivo da minha tristeza. De “brinde” recebi os maiores lábios que uma pessoa poderia desejar, uma boca tão carnuda que arriscava explodir a qualquer momento.
Ao chegar ao meu prédio, o porteiro pareceu se assustar, certamente estava impressionado com a minha mudança e a segurança dessa nova persona. Aproveitando meu rosto novo postei uma série de selfies nas redes. A resposta foi um grande volume de likes e comentários. Estava decretado: eu me tornara a minha melhor versão. Finalmente, tinha alcançado o resultado buscado. Será?
Confesso que não resisti e acrescentei ao meu combo de transformações extensão de cílios (pareciam leques batendo nervosamente), unhas postiças tão longas que eu poderia tocar a lua se quisesse e uma nova arcada dentária. As lentes dos meus dentes eram tão quadradas e reluzentes que lembravam aquele famoso chicletes. Agora sim, eu era perfeita e não conseguia deixar de me admirar em todo e qualquer reflexo.
Essa nova mania passou a fazer parte da minha rotina, inclusive quando saía com alguém. Estava conhecendo um cara novo, a gente conversou por semanas e decidiu sair. Ele estava sentado à minha frente. Contudo, eu só conseguia olhar para um ponto acima do seu ombro direito, meu próprio reflexo no espelho atrás dele.
Conforme a noite foi passando percebi o incomodo do meu acompanhante crescer. No começo pensei que era pelo fato de eu estar olhando para o espelho e não para ele. Mas, então ele coçou a ponte do próprio nariz e eu entendi. Por fim, pude notar algo que havia ignorado até então, meu nariz era gigante em relação ao meu rosto.
Eu caí em prantos, foi patético e involuntário. Quando verbalizei meu entendimento, ouvi que não era nada daquilo, que eu era louca e talvez até narcisista. Era mais fácil me diagnosticar do que admitir que achava meu nariz horrível e sem forma. Mas, eu sabia perfeitamente o que precisava fazer.
Minha terceira visita ao “doutor” durou algumas semanas dessa vez. Quando cheguei ele me recebeu de braços abertos dizendo que resolveria aquele grave problema de falta de definição da minha mandíbula. Ao ouvir essas palavras caí no choro, pois então eu tinha mais um grave problema?
Meu consolo foi receber a injeção de uma substância de preenchimento que mudou completamente o contorno do meu rosto e um nariz talhado milimetricamente. Precisei de algumas semanas para me recuperar e o “doutor” aproveitou meu internamento para me apresentar alguns amigos seus que resolveriam outros probleminhas que ele educadamente ainda não tinha mencionado.
A equipe apresentada foi cirúrgica em me ajudar a diminuir a cintura – só precisei quebrar umas costelas – e lipar quaisquer resquícios de que meu corpo já comeu hamburguer e batata frita na vida. Não vou mentir, foram momentos difíceis, mas os resultados seriam extremamente satisfatórios, o “doutor” me prometeu até trocar meu DNA.
Talvez meu DNA fosse exagero, entretanto, a cor do meu cabelo eu mudei com um cabeleireiro que atendia na “clínica”. Ao fim daquele processo, pude finalmente me libertar do meu casulo e descobrir a borboleta que estava escondida dentro de mim todo aquele tempo.
Quando meus olhos – que eu havia mudado de cor a laser – pousaram no meu reflexo tive uma grande revelação: eu era outra pessoa e estava feliz. Contudo, independente do sentimento de alegria, preciso confessar que foi um pouco confuso me olhar no espelho sem encontrar nada familiar.
Eu tinha novos olhos, um nariz esculpido, uma boca ainda maior, minhas orelhas estavam mais coladas a minha cabeça, meu rosto estava mais geométrico. Quando eu sorria podia ver a sombra que se formava abaixo das maçãs do meu rosto, agora proeminentes e sem nenhum preenchimento natural de bochechas.
Naquele misto de emoção e adrenalina quis compartilhar o resultado com alguns amigos e no mais natural dos instintos peguei meu celular. Mas, algo inesperado aconteceu, o sistema de reconhecimento facial falhou dez vezes consecutivas. Na décima primeira tentativa o aparelho foi travado por motivo de segurança. Como era possível que meu próprio celular não me reconhecesse?
O “doutor” me disse que isso não era nada demais, que logo eu estaria em casa e poderia levar o aparelho numa assistência técnica. Ele tinha toda razão, tudo que eu queria era deitar na minha cama e dormir. Então mais do que depressa corri peguei meu carro e fui para meu apartamento. Desembarquei em frente ao meu prédio e já estava me preparando para entrar quando me dei conta que havia perdido minha tag de identificação.
Apertei a campainha e logo a luz da câmera acendeu em meu novo rosto. O porteiro de sempre me perguntou de um jeito protocolar quem eu pretendia visitar. Fiquei levemente irritada, isso não era hora de brincadeira. Ele insistiu na pergunta e eu lhe disse que era a moradora do 808, a reação dele foi bastante desagradável. Olhando dentro dos seus meus olhos coloridos de laser ele respondeu “impossível, conheço bem a moradora do 808 e com toda certeza você não é ela”.
Diante desse impasse resolvi acabar com toda aquela piada sem graça e peguei meu celular dentro da bolsa, assim poderia ligar para ele do meu número e provar minha identidade. Porém, foi então que levei um choque de realidade, meu aparelho estava travado pelo não reconhecimento facial e eu estava sem documentos, pois o “doutor” nunca me pedia nada e eu preferia deixar em casa.
Percebendo que não conseguiria convencer aquele homem a respeito de quem eu era resolvi recorrer a meus amigos mais antigos. Bati de porta em porta e em todos os lugares a resposta era quase a mesma “não te conheço, nunca te vi”. O que eu poderia fazer? Dirigir até a casa dos meus pais para pedir o abrigo. Após duas horas no volante não tive a recepção esperada, nem mesmo eles me reconheciam.
Teria, o “doutor” realmente mudado até meu DNA? Eu ainda era eu? A resposta para essa pergunta não parecia mais tão simples e direta como quando percebi aquele milimétrico descompasso de sobrancelhas. Eu mergulhei no reflexo do espelho retrovisor do carro e tentei em vão buscar um mínimo traço da pessoa que eu era, mas não havia nada.
Não era apenas meu celular, o porteiro, meus amigos e meus pais que não me reconheciam naquele rosto e corpo emprestados, eu mesma não me reconhecia. Inconformada com minha nova condição de indigente de persona, desci do carro, descalcei os saltos altos que espremiam meus pés e me pus a caminhar rumo ao sol que se punha. Decidi andar até encontrar, dentro de mim, a dona daquelas feições que insistentemente eu via nos reflexos. Andei, andei, andei, andei....ainda ando!