Formigamento
Uma...duas...três... formigas caminham sobre a mesa do café da manhã diante dos meus olhos vazios. Observo a sua caminhada em fila com curiosidade, como será que elas entraram na casa? Será que há um formigueiro por perto? Terá algum vão ou buraco na casa? Ai Deus, mais uma coisa pra Elisa atormentar minhas ideias, vou ter que consertar essa porra...seja lá qual for a porta de entrada dessa praga. Mas, também são só três formigas, vou dizer isso pra Elisa, assim que ela chegar!
Dou um tapão sobre a mesa com minha grande mão fazendo um strike que acerta as três convidadas indesejadas, com violência, de uma única vez. É, Ulisses - penso comigo mesmo - esse tipo de coisa é o que assusta Elisa. Porém, minha doce companheira, dos olhos negros mais doces que já vi na vida, se assusta por qualquer coisa.
De repente, me dou conta de uma intensa dor de cabeça que parece dominar minha têmpora direita. Que estranho, não consigo me lembrar de ter chegado à mesa, tudo antes das três formigas é um grande borrão. Aliás, minha roupa está suja e eu estou nojento, preciso de um banho. Se não fosse completamente insano diria que andei rolando na terra com algum animal.
Há em minha camisa de flanela xadrez, verde e preta, manchas vinho escuras que parecem um tipo de lama, porém, menos densa. Elisa vai ficar muito puta quando ver como eu sujei a camisa que ela me deu de presente de aniversário. Não posso mais errar com essa mulher, ela vai acabar percebendo que é boa demais pra mim. Eu juro que estou me esforçando, tentando ser o melhor que eu consigo, mas parece que nada é o bastante.
Que se dane! Vou para o banheiro, entro debaixo do chuveiro e enquanto tento remover a argamassa de tons terrosos grudada no meu cabelo, observo algo que chama minha atenção. Quatro...cinco...seis...sete...oito... formigas caminham ordenadamente, em fila, pela parede. Não acredito, vocês estão aqui também?
Mais uma vez minha mão faz o trabalho sujo de assassinato, porém, preciso de três golpes dessa vez. As batidas na parede fazem com que os vidros de shampoo e cremes de Elisa tremulem no porta-trecos, que eu mesmo preguei na parede. O que eu não faço pra agradar Elisa?
Depois de toda essa emoção, a dor na minha têmpora direita piora, lateja como nunca. Preciso deitar, me jogo na cama meio molhado mesmo e sem nem me vestir, só preciso deitar. Assim que fecho meus olhos vejo o rosto delicado e ao mesmo tempo severo de Elisa. Então ela finalmente chegou?
Ela começa a falar sem parar - às vezes, Elisa é muito irritante - saem da sua boca frases como: “Por que você não consertou a casa? Era só passar a vaselina, que eu comprei, nas fechaduras. Eu mesma tive que passar. Por que você não cortou a grama? Por que não consertou o forro? Por que você bebeu? Por que você levantou a voz? Por que você só não fez as coisas que eu pedi? Não precisava ser assim...”. Eu sei, eu sei, eu seeeeeeeeeeeeeeei de todas essas coisas, você pode parar de repetir elas pra mim, Elisa! Que saaaaaaaaaaco!
Meu próprio grito me desperta desse sono inquieto, Elisa chegou somente em seus sonhos, aparentemente, ou seria em meu pesadelo? Enquanto reflito sobre quais pedidos de melhoria sou capaz de fazer nesse momento sinto algo sobre a minha pele. Olho para minha coxa esquerda e lá estão elas... nove...dez...onze...doze...treze...quatorze formigas caminhando, ordenadamente em fila.
Sem pensar dou três tapões em minha própria perna e no instante seguinte me arrependo. Não que tenha doído na minha perna, mas o som ressoou no meu cérebro tal qual um sino de alguma grande catedral. Preciso tomar um analgésico ou um café ou um whisky ou os três. Por que não?
A caminho da minha missão paro no bar improvisado que eu mesmo construí na casa, o que eu não faço pra me agradar? Claro que Elisa odiou esse bar, ela diz que quando eu não bebo sou ótimo. O problema é que eu bebo o tempo todo...
Inclusive, será que já estou bêbado? Estou usando a mesma camisa de flanela xadrez verde e preta, que continua suja. Nem me lembro de ter vestido ela e essa calça podre de novo... Devo realmente ser um imprestável, como Elisa tanto repete.
Com meu whisky puro - não há outro jeito de beber whisky - em mãos caminho até a cozinha para pegar meu segundo remédio e nem é a aspirina ainda. Sirvo meu café preto na caneca de louça branca e enquanto intercalo o café e o whisky vasculho a cestinha de remédios que deixamos na cozinha. Encontro minha tão sonhada aspirina, porém, assim que meus olhos se voltam para a caneca de porcelana branca em minhas mãos...
...quinze....dezesseis...dezessete...dezoito...dezenove...vinte formigas rodeiam a caneca caminhando ordenadamente, em fila. Levo um susto, afinal há vinte formigas no meu café e derrubo a caneca no chão. Não acredito, isso deve ser uma infestação, o que Elisa faria se ela estivesse aqui? Não faço ideia, mas eu sei o que eu faria.
Tão rápido quanto o latejar da minha têmpora direita permite pego a garrafa de álcool de cima da geladeira. Jogo sobre aquele mar de formigas e vejo-as lentamente sucumbirem, como é fácil acabar com a vida, não é mesmo? Por um instante, me dou conta de que esse é um pensamento um tanto aterrador!
Engulo a aspirina com a ajuda do whisky, pelo menos o meu doze anos essas infelizes não tiveram a audácia de macular. Começo a andar em círculos ou será que é a minha cabeça que está rodando? Ouço um zumbido que começa baixo e vai aumentando até o ponto de ser insuportável. Caio, mas não sinto meu corpo bater contra o chão, é como se eu já estivesse deitado. Escuridão!
Não sei quanto tempo passou, mas meus olhos se abrem novamente. A escuridão ainda está lá, por uns trinta segundos penso que estou cego, mas estava só me acostumando àquela luz intensa sobre mim. Parece um farol olhando diretamente para meu interior. Sinto meus olhos sendo fechados e então estou de volta ao chão de tábuas de madeira da cozinha. Não há mais farol, mas o latejar da minha têmpora segue firme e forte.
Olho ao meu redor, vinte e uma...vinte e duas...vinte e três...cinquenta e oito...cinquenta e nove...sessenta...noventa e oito...noventa e nove... formigas. Desisto de contar, elas são muitas, mas ainda assim continuam andando ordenadamente em fila. Ao lado está a garrafa de álcool, se elas pensam que vão ficar com a casa para elas, ah não vão! Se a Elisa chegar e encontrar essas formigas malditas vai fazer da minha vida um inferno mais miserável do que já é!
Decido então agir com estratégia contra o inimigo, caminho no final da fila de formigas, quase como se fosse uma versão gigante de uma delas. Conforme as sigo vou espalhando a trilha mortífera de álcool. Acho que o café + whisky + aspirina bateu porque ao mesmo tempo em que espalho o álcool ouço o som do líquido saindo do frasco um tanto distante e que engraçado, sinto gotas de álcool caindo sobre o meu peito como se eu estivesse deitado embaixo delas.
Isso não faz sentido, devo ter me chapado com aspirina, mas nem isso conseguiu abafar a puta dor na minha têmpora direita. Nesse momento, me dou conta que não faço ideia por que estou com essa dor. Algo perturbador passa pela minha mente, mas estou empenhado em ignorar. Eu jamais seria capaz de fazer qualquer coisa contra Elisa, as outras vezes foram deslizes, eu estava bêbado. Silêncio!
Chega de tantos pensamentos, ao mesmo tempo, decido que vou desligar algumas vozes, está na hora de apenas uma delas falar. Continuo seguindo a fila de formigas e espalho o álcool com a paciência de quem derruba o inimigo, flanco a flanco. O exército de insetos parece estar me levando para a porta do porão, abaixo da cozinha. Como são minúsculas, passam pela fresta da porta fechada.
Levo minha mão ao trinco e curiosamente, por um breve momento, sinto um frio percorrer minha espinha. Algo me diz que eu não quero ver o que está atrás daquela porta, ridículo, o que vai estar lá embaixo? Um formigueiro gigante? Depois dessa imagem esdruxula se formar na minha mente, prossigo, a porta está destrancada. Estranho!
Olho para a escada e depois do terceiro degrau é só escuridão, mas minhas companheiras não parecem se importar e seguem...quinhentos e três...quinhentos e quatro...quinhentos e cinco...formigas. Continuo deixando o álcool jorrar, estranho como agora seu odor lembra o de gasolina e parece se espalhar pela minha camisa. Como eu posso estar em pé e sentir como se estivesse deitado? Eu realmente me chapei!
...mil cento e treze... mil cento e quatorze... mil cento e quinze... mil cento e dezesseis... formigas. Enquanto me perco nas contas de inimigas desço, passo a passo, os degraus daquela velha escada. Elisa sempre me pediu pra arrumar essa droga podre, ela dizia alguém podia cair dessa porcaria...
Droga! Pisei em um degrau podre, ele se partiu embaixo do meu pé e eu senti meu corpo ser lançado para frente. Porém, foi como cair sem cair, mas levei um susto. Aos poucos meus olhos vão se acostumando com a escuridão do ambiente, que é interrompida por um facho de luz, algo que parece um farol, apontando para a parede do outro lado do cômodo.
A luz intensa, mas concentrada está parada no chão, ela ilumina as formigas...duas mil quinhentas e trinta e duas...duas mil quinhentas e trinta e três...duas mil quinhentas e trinta e quatro...Ah! nem faz sentido contar as formigas agora, até porque elas não estão mais em fila, agora os insetos se espalham em grande agitação em volta de alguma coisa, algo do tamanho de uma pessoa estirada ao chão.
As formigas circundam esse objeto e estranhamente somem ao entrar em contato com ele. O odor de álcool - ou seria gasolina? - aumenta, estou começando a sentir uma coceira na garganta. Credo, sinto como se estivesse engolindo a gasolina...
Tenso, mas decidido a descobrir o que se esconde nas sombras e atrai as formigas, caminho decidido. Cada passo aumenta o embrulho no meu estômago e então vejo, o que no fundo eu já sabia, eu já lembrava, mas não queria que fosse verdade. Elisa, meu Deus, Elisa!
Sentindo todo o ar sair do meu peito e ser preenchido por algo com um gosto terrível observo, deitado no chão, os olhos penetrantes de Elisa terminarem de espalhar a gasolina pelo porão. Ela se vira e pega a lanterna abandonada no chão. Minha cabeça dói muito e não é para menos, na briga de ontem, pela primeira vez, eu levei a pior.
Maldita caixa de música antiga, um objeto de família, morbidamente ornamentado com formigas. Só vi quando Elisa me acertou com aquela coisa, bem na têmpora direita. O peso da caixa foi exponencialmente aumentado pelo ódio e medo que aquela mulher sentia...de mim.
Nesse breve vislumbre de consciência vejo Elisa, ela olha para mim com aqueles lindos e grandes olhos negros. Sem nenhum tato ela estica minhas pálpebras e aponta a lanterna para meus olhos. Novamente aquela sensação de um farol me invadindo. Parecendo satisfeita com a inquietação dos meus olhos, ela se levanta e desliga a lanterna. Seu suave e severo rosto então é novamente iluminado, mas dessa vez pela luz de um fósforo que ela acabou de riscar na caixa. O que você está fazendo Elisa?
Agora só vejo suas costas se afastando, chamas e depois: nada!